Falta de “porta de entrada” para jovens usuários de drogas leva caos aos abrigos

Para entidades que atuam no setor, o fechamento dos Crecas – sem que a Prefeitura paulistana colocasse outro serviço no lugar – trouxe consequências desastrosas ao atendimento

O fechamento dos 15 Centros de Referência da Criança e do Adolescente (Crecas) que existiam na cidade de São Paulo – sem que a Prefeitura colocasse outro serviço no lugar – provocou um verdadeiro caos nos abrigos. A avaliação é de entidades que atuam nos abrigos para crianças e adolescentes.
Segundo estas organizações, os abrigos, que antes atendiam vítimas de abandono, abuso e violência doméstica, agora, são também obrigados a receber jovens em situação de rua usuários de drogas e com distúrbios.

As entidades explicam que parte dos jovens usuários de drogas é violenta e os equipamentos não têm profissionais preparados para atendê-los. “Eles estão ‘detonando’ os abrigos”, afirmou à reportagem o representante de uma das organizações que, por receio de ter o convênio cancelado pela Prefeitura, preferiu não se identificar.

‘Detonar’, no caso, não significa apenas provocar prejuízos materiais aos equipamentos, mas colocar em risco a integridade dos funcionários e prejudicar a recuperação daquelas crianças e jovens que já se encontram nos abrigos. “Eles levam outros para o caminho das drogas”, acrescentou outro representante.

Segundo relato das entidades, em outubro do ano passado, a Justiça acatou uma ação do Ministério Público e determinou a readequação dos Crecas, proibindo que crianças de zero a 12 anos incompletos e adolescentes com deficiência mental fossem atendidos nestas instituições.

A decisão judicial previa a transferência deste grupo de usuários do serviço para os abrigos de crianças e adolescentes. Os Crecas ficariam responsáveis por atender apenas adolescentes de 12 a 18 anos incompletos.

Um dos motivos para a separação, determinada pela Justiça, era impedir que as crianças e os deficientes mentais sofressem violências e abusos por parte dos maiores. 

“Como os Crecas recebiam crianças, adolescentes e jovens de zero a 17 anos e 11 meses, com os mais diversos problemas, a Prefeitura ficou numa situação difícil e optou por fechar os espaços em abril deste ano”, afirmam as organizações. 

Ao não abrir outro tipo de serviço que pudesse resolver o problema, entretanto, a Prefeitura acabou concentrando o atendimento nos abrigos para crianças e adolescente, que passou a denominar Serviço de Acolhimento Institucional. Ou seja, os problemas apenas foram transferidos de local.

Para as entidades, “a solução é ter uma porta de entrada na assistência social para essas crianças e jovens”. Este serviço, que hoje não existe, é que ficaria responsável pelo primeiro atendimento e, depois, encaminharia cada caso ao espaço ou destino mais adequado para recebê-lo, o que inclui a própria família, tratamento de dependência química, etc.
Contatada pela reportagem para falar sobre o assunto, a Secretaria Municipal de Assistência Social não respondeu ao pedido de informações. 

Situação dos abrigos será tema de audiência pública na Câmara Municipal

Em virtude de a situação dos abrigos de crianças e adolescentes ter chegado “ao limite” – como afirmam as entidades sociais –, o assunto foi debatido em uma reunião realizada segunda-feira (8/8), na Câmara Municipal.

O encontro contou com a participação da vereadora Juliana Cardoso (PT) e representantes de diversas organizações, entre as quais o Fórum de Assistência Social da Cidade de São Paulo (FAS). No evento, ficou acertada a realização de uma audiência pública para discutir o problema e buscar uma solução.

A vereadora pretende que o debate público seja promovido, em parceria, pelas três comissões da Câmara Municipal relacionadas com o problema: Comissão de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e da Juventude; Comissão de Assistência Social e Comissão de Direitos Humanos.

As entidades que atuam na área e representantes da Prefeitura serão convidados para o evento, que ainda não tem data e horário definidos.
Rede Nossa São Paulo
Airton Goes airton@isps.org.br 
Falta de “porta de entrada” para jovens usuários de drogas leva caos aos abrigos Falta de “porta de entrada” para jovens usuários de drogas leva caos aos abrigos Reviewed by Juan on agosto 16, 2011 Rating: 5

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