Tá vendo aquela igreja, moço? Lá também o padre não me deixa entrar.

Não, não há erro na letra .
O erro está no testemunho do Evangelho.


No dia 19 de agosto de 2010, aconteceu a manifestação em favor da vida. Recordou-se os seis anos de impunidade do massacre dos moradores em situação de rua no centro de São Paulo.
Centenas de pessoas se reuniram na casa de São Francisco na rua Riachuelo, 268. Casa acolhedora desta população no centro da capital paulista.
Aí refletiram sobre os desafios em ser morador em situação de rua. Combinaram também os preparativos para a viagem até Brasília no próximo dia 24 de agosto.
Pacificamente, em procissão, saíram até a Igreja de São Francisco.
Uma parada: como na via-sacra.
Lembrou-se do exemplo do santo de Assis que escolheu despojar-se de seus bens para ser solidário com os que não têm direito em possuí-los. Ontem e hoje.

Mais uma vez em marcha; rumo a Catedral da Sé. Casa de todos, cátedra do bispo de São Paulo.
Nas escadarias deste santo espaço o povo da rua, cansado de perambular, pode finalmente assentar-se.

Sentar-se. Direito sagrado prescrito no Livro dos cristãos.
Foi repetição de um acontecimento antigo, sempre novo.
Jesus também reuniu os sem nada, assentou-os e pediu que seus discípulos os alimentassem.
No entanto, este direito de sentar-se está sendo negado aos moradores em situação da rua. Ao menos nos degraus da catedral.
Assentou-se e vem a Guarda Civil Metropolina (GCM): "saiam".

Hoje não. Foi diferente.
A multidão esparramou-se em seus degraus.
Como os filhos que se assentam no colo da mãe;
como o cardeal que da cátedra acolhe e ensina seu rebanho.
Atitute de filhos, livres.
A GCM só assistiu. Não reprimiu.
Por isso, receberam flores.

Então os presentes puderam - com dor e esperança - fazer memória dos companheiros e das companheiras vitimizados: como botões arrancados que não puderam florescer .
Fizeram preces e súplicas.
Imploraram que a cidade mude seu olhar: deixe de vê-los como violentos ou paisagem não querida.
Pare de se querer ser uma cidade limpa de empobrecidos.
Uma cidade capaz de curar suas fraturas sociais.
Onde a paz e a justiça se abracem.

E na lembrança dos apagados, aconteceu o milagre da presença dos ausentes.
Paixão, morte e ressurreição.
Páscoa do povo da rua.
Páscoa do Cristo Jesus.

Último gesto: adentrar-se no seio da catedral-mãe de São Paulo e depositar aos pés de Cristo-pão as flores.
Surpresa! As portas da igreja se fecharam.
Na fala de um sofredor das ruas, a dor de todos: "Por que Deus está fechando as portas para mim!?"
"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"
"Tudo que fizeres ao pequeno, é a mim que fazes".
"Quem acolhe o menor destes, acolhe a mim".


Não podia ser verdade.
A Arquidiocese de São Paulo sempre foi símbolo de acolher os mais pobres entre os pobres.
Por isso religiosos, leigos e lideranças foram conversar com o padre.
Informaram a natureza da manifestação. Disseram que aí estavam sem querer perturbar a paz ou colocar em risco a segurança dos fiés.
Pediram desculpas por não terem comunicado aos responsáveis da catedral a celebração-memorial do martírio impune.
Acertaram que comunicariam - a quem de direito - quando houvesse outro ato semelhante.
Tudo esclarecido.
A certeza que a mãe não fechou seu coração para os filhos; apenas ruídos de comunicação.
Mais um pedido ao zeloso padre da Sé: "Não permita que a Guarda Civil Metropolitana expulse os pobres que se assentam na calçada da catedral utilizando o nome da Igreja para esta repressão".
E o espanto da resposta:
"Eles fazem isto porque assim decidimos. A escadaria é extensão da igreja, propriedade dela. Por isso, a GCM tira os que estão impedindo o fluxo livre à catedral".

Esta dor doeu mais forte...
Não é o Estado que usa a Igreja para reprimir.
É a igreja que usa o braço do Estado para expulsar!
Fórum da Assistência Social da Cidade de São Paulo


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